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O que é BDR e por que estão falando sobre isso?

Ana Gabriela Graças

Desde o dia 22 de outubro de 2020, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) disponibilizou as BDRs para investidores pessoa física com menos de R$ 1 milhão em patrimônio investido e reduziu o lote de negociação das BDRs para apenas uma unidade (antes eram 10). Além disso, agora também é possível investir em empresas que têm negócios no Brasil, mas optaram por abrir seu capital fora do país.

Mas o que é BDR? BDR é a sigla para “Brazilian Depository Receipts”, recibos de ações negociadas em reais em bolsas estrangeiras. Elas já estavam na B3 (Bolsa de Valores brasileira), mas agora todos podem investir em BDRs, sem a necessidade de ter um “patrimônio mínimo”. Ou seja, a partir de agora será possível investir tanto nas empresas listadas no Brasil quanto em companhias do mundo todo.

Esses certificados representam ações do exterior e, hoje, a Bolsa tem 676 BDRs disponíveis, inclusive das empresas FAANG: Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google/Alphabet. Confira aqui a lista de BDRs na B3.

Importante destacar que a B3 permite que sejam negociadas apenas ações das bolsas estrangeiras de Nova York (New York Stock Exchange) e da Nasdaq, pois ambas negociam recibos do mundo inteiro.

Com a possibilidade de investir em BDR, o mercado dá mais um passo rumo à democratização dos investimentos e os investidores têm ainda mais opções para diversificarem suas carteiras. Além disso, com os juros mais baixos, há uma tendência cada vez mais forte de migração da renda fixa para a renda variável.

Então, caso você tenha interesse conhecer essa nova possibilidade de investimento, aqui vamos explicar exatamente o que é BDR e o que é preciso saber antes de investir nesse produto.

Como funciona a BDR

Os BDRs são certificados emitidos no Brasil e representam ações de empresas estrangeiras. Isso significa que, ao negociar uma BDR, o investidor não investirá diretamente na empresa, mas sim em um recibo que tem como “referência” os ativos da companhia — o termo usado é “lastreado” nas ações da empresa.

Em outras palavras, é possível dizer que as BDRs espelham as ações estrangeiras e têm seus valores definidos no Brasil e em reais. Porém, é possível converter BDRs em ações estrangeiras, mas a partir desse momento o investimento passará a ser de fato feito no exterior e algumas regras mudam, então é preciso ter atenção ao fazer essa movimentação.  

Em relação a isso, um ponto importante a ser destacado é a paridade. Não necessariamente uma BDR equivale a uma ação da empresa — por exemplo, para adquirir uma ação da Apple é necessário ter 10 BDRs da empresa, por isso tal paridade deve ser levada em consideração na hora de transformar um recibo em ação.

Veja aqui 6 passos para começar a investir na bolsa de valores sem mistérios.

Volatilidade e dividendos das BDRs

A volatilidade das BDRs se dá tanto pela variação da ação quanto pela oscilação do dólar. Aliás, esse é um ponto positivo, pois, ao investir em BDR, o investidor “se blinda” durante as crises, já que o dólar tende a subir, como está acontecendo agora durante a pandemia, então o papel se torna uma proteção.

Isso acontece porque, quando se investe em empresas estrangeiras, as ações são negociadas em dólar. Então, se o dólar sobe, a empresa lucra mais e o investidor recebe os dividendos (que é a parcela do lucro da empresa distribuída aos acionistas), inclusive aqueles que investiram em BDRs.

No caso, a operação é feita no país de origem e o valor recebido aqui já chega com todos os impostos descontados — mas o desconto é maior do que os aplicados nas ações pois há taxas para os emissores de BDR nos EUA.

Porém, atenção: não são todas as BDRs que pagam dividendos. De acordo com um levantamento feito pela Economatica, algumas das empresas com maior valor de mercado nos Estados Unidos não pagam dividendos há mais de 10 anos ou desde o IPO (quando uma empresa entra na bolsa de valores). Dentre essas empresas, estão companhias como Facebook, Netflix, Amazon e Google.

E a liquidez?

Por definição, liquidez é a facilidade com que um ativo pode ser transformado em dinheiro, quando necessário. No caso das BDRs, a liquidez é menor em comparação às ações originais, mas isso está diretamente relacionado à quantidade de negociações no Brasil.

Além disso, o spread (diferença do preço de compra e venda) também pode acabar tornando a BDR mais cara do que deveria caso não haja tanta oferta. No exemplo abaixo, em apenas um dia 2.627K de papéis foram negociados, contra 592.368K de ações.

Nesse caso, se você tem menos recibos negociados, por consequência sua oferta diminui também e, então, o valor pode ser mais caro do que custaria uma ação (por conta da oferta vs. demanda).

Assim, quem tem BDRs nem sempre necessariamente irá conseguir uma precificação justa na hora de vender (sempre levando em conta o momento do mercado e dados fundamentalistas da empresa.

Ter isso claro é importante também para não especular com BDR por esse produto ter menos liquidez. Ao assumir um risco muito alto, talvez o retorno não seja positivo.

Exemplo de liquidez das BDRs

Fonte: TradingView

 

Porém, com a mudança na regra para investir em BDRs e com esse investimento mais acessível agora, a tendência é que mais investidores migrem para a renda variável e, por consequência, a liquidez aumente.

Aqui você confere um conteúdo completo sobre a diferença entre rentabilidade e liquidez.

Como investir em BDRs

Agora que você já sabe o que é BDR, talvez se interesse por investir nos papéis. Para isso, existem duas opções:

  • Compra direta: basta ter uma conta em uma corretora de investimentos e realizar a ação de compra e venda, assim como é feito com as ações das empresas brasileiras
  • Aplicação em fundos: algumas corretoras oferecem fundos de investimento que aplicam também em BDRs, seguindo as regras dos fundos de renda variável

 

BDRs fazem parte da renda variável, então cuidado

Por mais que agora as BDRs estejam disponíveis para todos os investidores, o cuidado com a renda variável é o mesmo, em especial quando estamos falando de ações: é preciso acompanhar de perto a empresa na qual você irá investir e também a economia do país onde ela está.

Se parar para pensar, quanto mais uma empresa lucrar, mais suas ações tendem a se valorizar, por isso o investimento deve ser feito em companhias com perspectiva de crescimento.

Porém, tenha em mente que os papéis refletem de forma considerável o comportamento das ações das empresas, mas não completamente. Para exemplificar como isso acontece, o gráfico abaixo mostra a diferença entre a oscilação da BDR da Apple (AAPL34) e em comparação com o movimento da ação da empresa (AAPL). Os dados são uma análise de 30 minutos.

 

Diferença entre ação e BDR

Fonte: TradingView

 

De qualquer forma, ainda assim é fundamental conhecer a fundo o cenário daquela companhia. Busque pela página de Imposto de Renda da empresa e encontre todos balanços e apresentações de resultados para se balizar, por exemplo. Lembrando que nem sempre são as próprias empresas que ofertam as BDRs, e, portanto, pode acontecer de não ter um material disponível para o papel em questão.

Porém, no site da empresa é obrigatório que essas informações estejam disponíveis, seja aqui no Brasil ou nos EUA. Importante destacar que na maioria dos casos o material estará em inglês, então, caso isso seja uma barreira ou você se sinta inseguro, o melhor é investir em um fundo ou buscar um meio para traduzir as informações — mas jamais operar às cegas.

Outro ponto importante a ser citado é que alguns investidores podem cair no erro de investir em BDRs apostando na alta do dólar, mas o objetivo desse tipo de investimento não é esse — até porque para isso existem os fundos cambiais, por exemplo (falaremos sobre eles mais adiante).

Além disso, é importante que sua carteira de investimentos seja diversificada e tenha tanto produtos de renda fixa quanto de renda variável — os investimentos de renda fixa são fundamentais para garantir a segurança do seu patrimônio quando o mercado fica muito volátil.

Ter ações diversificadas também é importante para a proteção dos seus investimentos. Assim, uma boa estratégia é manter os investimentos em ações brasileiras e paralelamente a isso investir nas BDRs. Afinal, quando o dólar cai, a Bolsa de Valores brasileira tende a subir, então ocorre um movimento de “compensação”.

Conheça 6 aplicações financeiras rentáveis para ampliar sua carteira de investimentos.

Outras opções de renda variável no exterior

Dando um passo atrás, qual a vantagem de negociar aqui no Brasil investimentos estrangeiros, ao invés de operar diretamente no exterior?

Para fazer um investimento estrangeiro é preciso realizar uma remessa de câmbio. Isso significa que, ao obter lucro com a operação, ao trazer o dinheiro para o Brasil ou ter ganho de capital, o investidor terá que arcar com os custos dessa movimentação. No caso da BDR, isso não acontece.

Além disso, é possível gerenciar todos os seus investimentos em apenas um home broker, de modo que é mais fácil acompanhar os ativos e operar em um sistema só. E mais: na hora de pegar o Imposto de Renda, é muito mais simples quando tudo está apenas em um lugar.

Inclusive, em relação ao Imposto de Renda, fazer a declaração de BDRs é um processo muito mais simples do que no caso de investimentos no exterior, então essa também é uma vantagem importante para não correr nenhum risco de declarar algo da forma incorreta.

Agora vamos às opções de investimento no exterior que podem ser feitas no Brasil.

Fundos de ações

Já que estamos falando em BDRs, não poderíamos deixar de citar os fundos de ações. Essa opção é um pouco mais simples de investir na bolsa, afinal, quem irá operar no pregão não será o investidor, mas o gestor do fundo. Além disso, alguns fundos realizam aplicações fora do Brasil, mas em seu nome deve estar evidenciado “investimento no exterior”.

Fundos multimercado

Os fundos multimercado seguem o mesmo padrão dos fundos de ações, mas, neste caso, investem em diferentes mercados, tais como renda fixa, câmbio, ouro, mercados específicos (como tecnologia) e até mesmo ações. Aqui também é possível investir em ativos internacionais estando no Brasil.

Fundos cambiais

Ao investir em fundos cambiais, é possível fazer aplicações em fundos que têm como base moedas estrangeiras, como dólar, euro e libra. Esses produtos servem para proteger a carteira do investidor das grandes oscilações dessas moedas e algumas opções permitem investir a partir de R$ 500.

ETFs

O ETF (Exchange Traded Fund), também conhecido como fundo de índice, é um tipo de fundo de investimento em ações que “espelha” a performance de índices de referência. Por exemplo, ETFs que replicam o Ibovespa “copiam” sua carteira teórica, proporcionando o mesmo retorno do índice oficial para o investidor cotista — como o BBOV11.

É possível também investir em ETF de Índice Small Cap (SMLL) como SMAC11, S&P 500 (maior índice dos EUA) como IVVB11 e Índice Dividendos (IDIV) como DIVO11, para citar alguns exemplos.

A lista completa de ETFs listados na B3 você confere aqui.

COE

COE é a sigla para “Certificados de Operações Estruturadas”. Esse investimento tem características tanto da renda fixa quanto da renda variável. Assim, é possível investir em ativos internacionais, por exemplo, mas com a segurança de sempre estar atrelado a uma cotação, como a variação cambial ou Ibovespa.

Criptomoedas

As criptomoedas são moedas digitais, sendo a mais famosa delas o bitcoin. Elas não são emitidas por nenhum governo e estão disponíveis em todo o mundo. Assim, uma alternativa para investir nas criptomoedas é por meio da compra de cotas de fundos de criptomoedas — e, desde 2018, a CVM permite que os fundos brasileiros façam investimentos “indiretos” em moedas digitais no exterior.

Outra opção é comprar “stablecoin” (em tradução livre “moedas estáveis”), em que se emite um token (cripto) lastreado em dólar para reduzir a volatilidade das criptomoedas.

 

Deu para entender o que é BDR e o que mudou com as novas regras da CVM? Conta para a gente nos comentários se você começará a investir em BDRs.

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